Desejo e solidão
Martha Medeiros
Se existe uma coisa que me faz ganhar o dia é ler um livro que bagunça as minhas entranhas. O último que conseguiu tal feito foi Uma Desolação, de Yasmina Reza, editora Rocco. É um monologo de um ancião. Ele fala a um filho que não interage, apenas escuta.
Há muitos argumentos para a desolação do personagem. Ele se sente excluído do futuro e acredita que nada é real, a não ser o momento. Revela que, a partir de certa idade, tudo dá na mesma. Que as pessoas gastam inutilmente seu tempo se ocupando. Que depois da juventude trocamos paixão por ponderação, o que é um crime. E que a única coisa que existe é desejo e solidão. Foi aí que minhas entranhas acusaram o golpe.
Como eu disse antes, o personagem é um velho sem muito tempo de vida fazendo um inventário de suas perdas e ganhos. É nesta contabilidade que sobram apenas o desejo e a solidão: tudo o mais lhe parece descartável. Não é uma visão oba-oba da vida, ao contrário, é uma análise cirúrgica, nossa alma a olho nu.
Desejamos um lar, uma profissão, ter amigos. São as coisas que nos ensinaram a desejar, projetos socialmente aprovados. Mas o desejo tem vontade própria, é longevo e não se esgota no cumprimento de metas. Nosso desejo é secreto, e sabemos muito bem que é ele e só ele que nos move.
“Não existe nada mais triste, mais sem graça que a coisa realizada”, diz o personagem. Essa deve ser a grande angústia da idade avançada: mesmo tendo tido uma vida intensa e gloriosa, isso não basta. É preciso manter a ilusão pulsando, um alvo adiante, a perseguição contínua, para não sermos sepultados antes da hora.
O desejo é um leão. Selvagem, carnívoro, brutal. Não permite acomodação: nos faz farejar, caçar, brigar pelo nosso sustento emocional. O desejo nos transpassa, nos rouba o sono, confunde o pensamento lógico. O desejo corrompe nosso bom comportamento, faz pouco caso da nossa índole irretocável. O desejo não tem pátria nem família, o desejo não tem hora nem tem verbo, o desejo ruge, nosso corpo é sua jaula.
Mas a gente se acomoda e anestesia o leão em nós. Resta a jaula vazia. Já nenhum risco nos ameaça, nenhuma surpresa nos aguarda. Uma Desolação, chama-se o livro.
Domingo, 18 de agosto de 2002.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.